Samuel Hanan*
Estamos a poucos dias das eleições para presidente da República, governadores dos estados e dos membros do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas. A democracia garante a todos o direito de opinar e de escolher livremente seus candidatos. O que ela não garante é a impunidade de cada escolha.
Essa é a síntese de clássicos da filosofia e da sociologia. Alexis de Tocqueville (1835-1859), filósofo francês, foi o primeiro a abordar essa questão. Ele escreveu que a democracia dá a todos o direito de opinar e escolher, porém cria a “tirania da maioria” e a responsabilidade individual pelas escolhas. Segundo esse entendimento, a liberdade não é fazer o que quiser sem consequência; é poder escolher e arcar com os resultados dessa escolha. Ou seja, na democracia, cada cidadão é senhor de sua opinião, mas escravo das consequências disso.
O sociólogo alemão Max Weber (1862-1920), na obra “A política como vocação”, escreveu que “a ética da responsabilidade manda responder pelas consequências (previsíveis) de nossos atos”. Isto é: cada um tem o direito de opinar e escolher pelo que acredita, mas tem que responder pelas consequências possíveis da sua escolha. Weber dizia que, na política democrática, não basta ter boas intenções. Assim, opinar impunemente é coisa de profeta, não de cidadão.
O sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), por sua vez, desmascara em sua obra a troca desigual do clientelismo. Nessa prática, um político oferece um gesto simbólico barato: roupa igual à do povo, um chapéu, um boné, um abraço, um sorriso e a bondade que fica até o dia seguinte da vitória. Em retribuição, recebe um bem valiosíssimo: o voto do cidadão, ou uma espécie de procuração com poderes amplos e irrevogáveis, válida por quatro anos.
Votar por mera simpatia, por identificação da vestimenta usada somente em época de eleição, ou por se deixar seduzir por promessas irrealistas e que invariavelmente não serão cumpridas – do gênero “picanha com cervejinha” -, não é o que a população anseia e necessita.
Cada voto entre os 158 milhões de eleitores decide a vida de 214,3 milhões de brasileiros pelos próximos quatro anos.
Poucos se dão conta disso. A maioria ainda ignora que existem dois tipos de corruptos no Brasil, ambos igualmente ladrões. O primeiro tipo é o corruptor da verdade, que mente para satisfazer quem deseja o impossível, porque quando a maioria quer o impossível, só os mentirosos podem satisfazê-la, como escreveu o economista norte-americano Thomas Sowell. Esse tipo é o alicerce para o segundo, ainda mais danoso, mas indispensável para alcançar o enriquecimento ilícito, com grandes volumes de recursos financeiros retirados das áreas essenciais da população em benefício de governantes, familiares e aliados. Indivídulo que não têm o menor constrangimento de, uma vez no poder, retirar o arroz, o feijão, o leite e as proteínas das mesas das famílias mais empobrecidas, pessoas que nada têm, nem mesmo forças para protestar.
Esse grande mal não é novo, no entanto os casos suspeitos de corrupção vêm se acumulando, movimentando dezenas de bilhões de reais todos os anos, e agora não estão mais restritos aos poderes Executivo e Legislativo, atingindo também com grande impacto as cúpulas do Poder Judiciário (STF), do Ministério Público Federal e, ainda, da Política Federal.
O escândalo do Banco Master, protagonizado por Daniel Vorcaro, ultrapassou R$ 85 bilhões e envolve contratos com escritórios de advocacia da esposa ou filhos de ministros do STF, completamente atípicos no escopo e nos valores, que chegam a R$ 130 milhões em uma única contratação.
Nesse triste espetáculo de imoralidades, são citados um ex-presidente da República, ex-ministro da Justiça, ex-ministros do STF, ex-ministro da Fazenda, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e até o procurador-geral da República e o diretor-geral da Polícia Federal. Aparecem como beneficiários de favores e agrados de todo gênero – viagens internacionais regadas a whisky caríssimo e charutos cubanos, empréstimo de aeronaves, convites vips para camarotes em grandes eventos, aluguel de mansões, e até orgias e festas com jovens estrangeiras – autoridades dos três poderes da República, esprairando uma névoa de desconfiança geral por todo o país.
A história mostra que, no Brasil, os escândalos se sucedem. Mas o rombo do Banco Master não pode jogar na gaveta do esquecimento o indecente episódio do roubo dos idosos e aposentados do INSS, no qual é citado o envolvimento de ex-ministros e do filho do presidente da República.
O Brasil de hoje parece um remake da Lava Jato, de novo com personagens do partido político do governo, acrescida agora de figuras do Judiciário. O final precisa ser diferente, com a punição dos envolvidos, sem reviravoltas jurídicas baseadas em filigrtanas e sem investigações seletivas.
O país precisa ser passado a limpo.
A nova história começa a ser escrita com o voto consciente de cada cidadão brasileiro que não pode se deixar enganar por promessas de ocasião e bondades eleitoreiras. A propaganda eleitoral no rádio e na televisão – gratuita apenas no nome, porque é paga com o dinheiro do contribuinte, por meio do fundo eleitoral – nem sempre diz a verdade. Não raramente, vende o que o candidato não pode entregar. Eles, marqueteiros e candidatos, sabem disso. Mesmo assim, usam e abusam despudoramente dessa velha estratégia cujo objetivo é um só: ganhar a eleição. O eleitor é que precisa ficar muito atento para não se deixar ser enganado agora e amargar arrependimento por quatro anos.
Votar sem reflexão ou trair a própria consciência é dar um tiro no pé.
*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”. Site: https://samuelhanan.com.br










