Olhares do Norte – por Erikson Oliveira
Reflexões e opiniões de quem vive a Amazônia e observa o Brasil de um ângulo único.
Enquanto autoridades discursam sobre inclusão, pessoas com deficiência ainda imploram por respeito básico; no Amazonas, exceções expõem o que deveria ser regra
O 1º Seminário de Acessibilidade da Região Norte dos Tribunais de Contas, realizado pelo Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, começou com discursos fortes, técnicos e bem intencionados. Falou-se de dignidade, inclusão, estrutura e direitos.
Mas há uma verdade que precisa ser dita sem rodeios:
o Brasil não tem problema de legislação. Tem problema de caráter institucional.
Mais do que discursos, o seminário também evidenciou algo que precisa ser reconhecido: a força de uma gestão conduzida por mulheres em posições de alta responsabilidade, enfrentando um dos temas mais sensíveis da sociedade contemporânea.
A presidente do Tribunal, Yara Amazônia Lins, não apenas abriu o evento — ela reafirmou o papel do controle público como instrumento de transformação social, ao defender que a acessibilidade não pode ser tratada como mera exigência legal, mas como um compromisso ético com a dignidade humana.
Na mesma linha, a procuradora Fernanda Cantanhede Veiga Mendonça elevou o debate ao ponto central que muitos ainda evitam encarar: o problema não está nas limitações das pessoas, mas nas estruturas e, principalmente, nas atitudes que insistem em excluir.
Duas mulheres à frente de instituições estratégicas, conduzindo um tema que ultrapassa fronteiras regionais e toca uma realidade global — a luta por inclusão, respeito e igualdade de oportunidades.
E isso não é apenas representatividade.
É liderança com propósito.
Mas, fora desse avanço institucional, a realidade ainda impõe um contraste duro.
Porque fora dos auditórios climatizados e das falas bem construídas, a realidade é outra — e ela não é bonita.
Ela é cruel, silenciosa e cotidiana.
Pessoas com deficiência não enfrentam apenas escadas sem rampa. Enfrentam olhares de desprezo, atendimentos frios, respostas atravessadas e, muitas vezes, humilhação disfarçada de burocracia.
Enfrentam o despreparo.
Lidam com a impaciência.
E, muitas vezes, esbarram na falta de humanidade.
E isso não acontece só na rua. Acontece dentro de órgãos públicos. Acontece em instituições que deveriam proteger. Acontece, muitas vezes, dentro da própria família.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 18 milhões de brasileiros vivem com algum tipo de deficiência. E ainda assim, seguem sendo tratados como exceção — quando são, na verdade, parte da regra social.
O seminário trouxe um discurso necessário: fazer os direitos saírem do papel.
Mas a pergunta que fica é incômoda — e precisa ser feita:
Por que ainda não saíram?
Falta orçamento? Nem sempre.
Falta estrutura? Em alguns casos.
Mas, na maioria das vezes, falta vontade.
Falta gente comprometida.
Falta gente que entenda que atender bem não é favor — é obrigação.
E é justamente por isso que algumas iniciativas precisam ser escancaradas.
Porque quando algo funciona, não é milagre.
É escolha.
Durante o evento, serviços foram oferecidos à população. Documentos foram emitidos. Orientações foram dadas. Na prática, aquilo que costuma ser demorado, difícil e desgastante, aconteceu de forma mais acessível.
E é nesse contraste entre discurso e prática que um nome se destaca — não por cargo, mas por atitude:
Magno Sancho Figueiredo.
Em um sistema onde muitos ainda tratam a dor do outro com distância, Magno trabalha com proximidade. E não é discurso. É vivência.
Cadeirante, ele não precisa de relatórios para entender o que uma pessoa com deficiência enfrenta. Ele sente. Ele vive. Ele carrega na rotina aquilo que muitos ignoram no papel.
E talvez por isso seu atendimento não seja comum.
É humano.
Quem passa pela Gerência de Carteiras (GECART) encontra algo raro no serviço público: respeito genuíno. Não aquele protocolar, automático, engessado — mas o respeito que olha no olho, que escuta, que acolhe.
Pessoas chegam ali carregando mais do que documentos. Chegam com cansaço emocional. Chegam com medo. Chegam marcadas por experiências ruins, por olhares tortos, por portas fechadas.
E encontram algo diferente.
Encontram alguém que não as trata como número.
Não as apressa.
Não as ignora.
Encontram dignidade.
E isso deveria ser o mínimo.
Mas ainda é exceção.
O ex-velejador Lars Grael, ao falar no seminário, foi preciso: o Brasil tem leis suficientes. Falta fazê-las valer.
Mas talvez falte algo antes disso.
Falta indignação.
Porque enquanto a sociedade aceitar atendimento ruim como normal, nada muda.
Enquanto o cidadão sair humilhado de um órgão público e achar que “é assim mesmo”, nada muda.
Enquanto servidores tratarem pessoas como incômodo — nada muda.
O que o Amazonas mostrou, com esse seminário e com o trabalho de setores como a GECART, é que o problema nunca foi saber o que fazer.
O problema sempre foi escolher fazer.
E quando alguém escolhe fazer certo, isso não passa despercebido.
Vira referência.
Vira contraste.
Vira denúncia silenciosa contra todo o resto que não funciona.
Porque quando existe um Magno Sancho Figueiredo dentro do sistema, fica impossível aceitar que o sistema inteiro continue falhando.
Acessibilidade não é favor.
Não é projeto.
Não é evento.
É obrigação.
E, acima de tudo, é humanidade.
Sobre o autor
Erikson Oliveira é Bacharel em Processos Gerenciais, Pós-Graduado em Administração Pública e Direito Previdenciário, Especialista em Gestão e Relatórios e Técnico em Segurança do Trabalho.
Contato: oliveira.erikson@yahoo.com











