Gestão de Recursos Humanos alinhada à Gestão Pública.

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A gestão de pessoas dentro de um órgão público é, sem dúvida, um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores oportunidades para transformar a administração pública. Muitas vezes, a sociedade associa a gestão pública apenas a planejamento orçamentário, execução de políticas ou oferta de serviços, mas por trás de tudo isso está o trabalho diário de servidores que dão vida a essas ações. E é justamente nesse ponto que considero essencial refletirmos: de que forma estamos cuidando das pessoas que fazem a máquina pública funcionar?

Ainda é muito comum que a gestão de pessoas no setor público seja vista de maneira restrita, quase sempre associada a processos burocráticos como folha de pagamento, registro de frequência, cumprimento de legislações ou trâmites administrativos. Esses pontos são importantes, claro, mas representam apenas uma pequena parte do que deveria ser a verdadeira gestão de pessoas. Na prática, gerir pessoas significa investir em motivação, capacitação, reconhecimento, comunicação eficiente e criação de um ambiente de trabalho que favoreça a produtividade e o engajamento.

Não é segredo que muitos servidores convivem com desmotivação. A ausência de planos de carreira atrativos, a falta de capacitação contínua e a dificuldade de serem ouvidos em suas demandas e ideias são fatores que, aos poucos, desgastam o ânimo dos profissionais. E um ponto que considero ainda mais grave é a falha na comunicação interna. Muitos órgãos não possuem canais claros para orientar, ouvir ou repassar informações de forma transparente. Isso gera muitos ruídos, cria mal-entendidos e afasta os servidores das decisões. A falta de comunicação adequada é um dos maiores entraves para a construção de equipes unidas, pois sem diálogo não existe alinhamento de objetivos e muito menos engajamento fidedigno.

Acredito que um dos caminhos para melhorar esse cenário é transformar a forma como os órgãos públicos enxergam a gestão de pessoas. É preciso abandonar a visão de que o servidor é apenas mais um recurso humano disponível e passar a encará-lo como peça estratégica. Servidores motivados, bem informados e qualificados representam não apenas eficiência administrativa, mas também legitimidade e confiança perante a população.

Nesse sentido, algumas ideias de melhoria podem ser colocadas em prática. A primeira delas é o investimento em programas de capacitação permanente. Não basta oferecer treinamentos esporádicos e desatualizados; é necessário criar uma cultura de aprendizagem contínua, alinhada às mudanças sociais, legais e tecnológicas que impactam diretamente o serviço público. Outra medida importante seria a valorização por meio de reconhecimento. Muitos órgãos já praticam mecanismos de avaliação de desempenho, mas o foco quase sempre está em apontar falhas. É preciso inverter essa lógica e criar ferramentas que reconheçam boas práticas, premiem inovações e incentivem a busca por soluções criativas dentro do serviço público.

No campo da comunicação, vejo a necessidade de criar canais mais claros e acessíveis, onde informações cheguem com rapidez e transparência. Reuniões periódicas, murais digitais, plataformas de gestão interna ou até mesmo rodas de conversa podem reduzir distâncias e fortalecer a integração entre gestores e servidores. Quando existe comunicação clara, os profissionais se sentem parte das decisões, compreendem melhor seu papel e trabalham de forma mais alinhada com os objetivos do órgão.

Além disso, a modernização de processos internos é indispensável. Ainda se perde muito tempo em tarefas burocráticas que poderiam ser automatizadas com uso de tecnologia. A informatização e digitalização de serviços internos não apenas aumentariam a eficiência, como também trariam mais transparência e segurança para a gestão. Com isso, o servidor teria mais tempo e energia para se dedicar às atividades que realmente geram impacto social.

Outro ponto que considero crucial é a promoção de um clima organizacional saudável que está diretamente ligada ao bem-estar no ambiente de trabalho. Relações baseadas no respeito, na ética e no diálogo reduzem conflitos, aumentam a cooperação e tornam o dia a dia menos desgastante. Isso tem reflexo direto na produtividade e na qualidade do atendimento ao cidadão.

Claro que existem desafios. A burocracia excessiva, a resistência a mudanças e a escassez de investimentos são barreiras reais. Mas acredito que superar esses obstáculos depende muito da mudança de mentalidade dentro da gestão pública. Quando gestores passam a compreender que cuidar das pessoas é tão estratégico quanto cuidar de orçamento ou de políticas públicas, os resultados aparecem de forma consistente.

Em minha opinião, a integração entre gestão de pessoas e gestão pública não deve ser vista como algo opcional, mas como uma necessidade urgente. Um órgão que se preocupa em valorizar e comunicar-se bem com seus servidores está, na verdade, investindo na própria legitimidade e eficiência. No fim das contas, todo esse esforço se traduz em um serviço público mais qualificado, em servidores mais comprometidos e, principalmente, em cidadãos mais bem atendidos.

Portanto, se queremos de fato transformar a gestão pública em algo mais eficiente, humano e próximo das necessidades da sociedade, precisamos começar pela base: Servidores motivados, bem informados e preparados não apenas cumprem tarefas, mas ajudam a construir políticas públicas mais sólidas, inovadoras e capazes de gerar impacto positivo. Em outras palavras, valorizar e comunicar-se com o servidor é valorizar o cidadão, e essa talvez seja a maior lição que a gestão pública deve assumir daqui em diante.

Adriano Sobral

Bacharel em Administração e Contabilidade

Pós-Graduado em Gestão Pública

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Redação
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