Entre mortos e feridos

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Contra fatos não adianta espernear. Pode-se até discutir suas razões ou consequências, mas não se pode escapar à realidade de mais de meio milhão de mortos, quase quinze milhões de desempregados, de um custo de vida que não para de subir e um achatamento na economia nacional. Polarização não leva a nada, pois no final das contas, opostos ou não, todos sofremos os mesmos reveses, afinal de contas, o barco afunda para todos, não é?

Daqui do Amazonas se tem de observar o quadro de um prisma peculiar, pois a realidade geopolítica já era narrada de forma distinta há, pelo menos, sessenta anos por Samuel Benchimol: ignorar a necessidade de um equilíbrio sócio-econômico-ambiental é traçar o caminho para o fracasso. E, no caso da Amazônia, fracasso se traduz em consequências para além de seus meros limites territoriais.

Qual a importância de se destacar isso agora, nesse exato momento? É que o modelo de sobrevivência econômico amazonense ainda se ancora brutalmente no que arrecada do Polo Industrial de Manaus. E, apesar de sexagenário, o Modelo ainda tem suas fragilidades, sofrendo com inúmeras alterações da proposta original de desenvolvimento, bem como sujeito, por óbvio, aos sabores da Economia Mundial, sempre à busca de minimização de custos. Mas não só isso, pois qualquer uma das indústrias aqui localizadas, mesmo as não atreladas à multinacionais, têm por obrigação a projeção de cenários futuros, para decisões como investimentos ou permanência nessas terras. Desta forma, quando o Brasil se torna um caldeirão em que se discute cozinhar as Instituições, e se aponta incerteza quanto à demora em tal situação, com imprevisibilidade do resultado, se dá uma clara mensagem para, no mínimo, haver prudência de quem aqui pense em se instalar, ou mesmo para quem pensava por aqui investir.

Há valores, portanto, que independentemente de qualquer orientação ou posicionamento ideológico, precisam de cuidados. Não se pode admitir, em política regional ou nacional, ignorância quanto à necessidade de proteção, blindagem ou reforço ao modelo que aqui foi implantado. Talvez os nomes “Zona Franca de Manaus” ou “Polo Industrial de Manaus”, não ajudem muito a esclarecer ao resto do país o que eles exatamente querem significar, então de uma forma bem simples se explica: trata-se do maior e mais eficiente programa de preservação ambiental do planeta, pois concentra na indústria de transformação aqui instalada um centro econômico, sustentável, que exclui a pressão sobre a Floresta. Atentar contra esse modelo é um tiro no pé, pois ignora as próprias necessidades do povo que aqui vive, bem como da Floresta que necessita, também, dos afluxos internacionais para sua conservação. Assim, qualquer atentado à segurança do Modelo faz com que os investidores aqui instalados repensem, sempre, a relação custo-benefício de permanência num local que detém suas dificuldades peculiares, em especial a logística.

Para alguns, a bandeira “ambiental” em torno da Amazônia soa mal e contra o “progresso”, e os resultados de tal incúria já se enxergam com a atuação predatória em diversos pontos. Contudo, as consequências já se tornam, a cada ano mais presentes, pois a preservação do nosso bioma é necessária para a sobrevivência de nosso país.

Nossos “rios aéreos”, por exemplo, já dão sinais de prejuízos ao regime de chuvas nacional, prejudicando, de imediato, o agronegócio brasileiro e nossa matriz hidrelétrica. Isso, para falar em apenas um exemplo. E, somente pelo viés ambiental já se tem a noção da necessidade de proteção de nossa matriz econômica. Todavia, o Modelo ainda é superavitário, devolvendo ao Brasil mais de 70% da arrecadação tributária de federal, não se podendo, em nenhum momento prescindir de tal fonte de receita.

O Brasil – e o Amazonas – que resta depois dessa hecatombe sanitária precisa olhar para a frente, e não há como se fazer isso sem se pensar em sustentabilidade. Aos sobreviventes dessa Pandemia, dentre os quais inúmeros desvalidos que tiveram as vidas atropeladas, resta saber qual será o seu dia de amanhã, e é nossa responsabilidade tratar com cuidado da sobrevivência de nosso povo. Enquanto a briga segue, os ânimos se exaltam e os extremos se acentuam cada vez mais, quem se encontra no meio, perdido, sem saber o que fazer, é quem luta para sobreviver. Não há assistencialismo que dê conta da ausência de trabalho, não há desenvolvimento sem receita. E, nesse contexto inteiro, há de se lembrar que há contas para pagar e que gritos e palavras de ordem não enchem a barriga de ninguém. Ao contrário, assustam os que aqui desejam se assentar.

Dentre mortos e feridos, aos que restam não interessa muito saber de quem é a culpa, interessa viver. Desta forma, voltemos logo nossas atenções ao que interessa e reforcemos nossos meios de produção. Aqui no Amazonas, tão importante para o nosso Brasil, se precisa de atenção e ação, mais do que palavras.

*Carlos Almeida Filho, vice-governador do Amazonas. Defensor Público (licenciado). Doutorando e mestre em Direito.

Fonte: https://bit.ly/3E9PkXN

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