A epidemia silenciosa: O perigo dos cigarros eletrônicos para a juventude brasileira

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Os dispositivos eletrônicos estão se revelando uma nova epidemia de vício e problemas de saúde.

O número de fumantes de cigarros eletrônicos cresceu 600% de 2018 a 2023, no Brasil, passando de 500 mil para 2,9 milhões, segundo pesquisa do Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica). De acordo com as estatísticas, jovens entre 18 e 34 anos são os principais usuários. Promovidos como uma alternativa mais segura ao cigarro tradicional, os dispositivos eletrônicos estão se revelando uma nova epidemia de vício e problemas de saúde. Para muitos jovens, o cigarro eletrônico se tornou uma moda perigosa, que esconde uma série de riscos à saúde.

Foi o caso, por exemplo, do estudante universitário Gabriel Silva, 25 anos, começou a usar cigarros eletrônicos quando tinha 20 anos. Inicialmente, ele foi atraído pela promessa de que o “vape” era uma alternativa menos prejudicial ao tabaco convencional e que ajudaria a aliviar o estresse dos estudos.

“Eu comecei a usar cigarro eletrônico por influência dos meus colegas. A gente sempre se encontrava depois das aulas para descontrair e o vape parecia inofensivo. Era divertido escolher diferentes sabores e fazer truques com a fumaça”, relembra Gabriel.

No entanto, o que começou como uma diversão inocente logo se transformou em um vício. Gabriel percebeu que não conseguia passar mais de algumas horas sem utilizar o cigarro eletrônico e que sua produtividade nos estudos começou a cair.

O maior susto veio há seis meses, quando ele foi diagnosticado com uma grave inflamação pulmonar. “Fiquei desesperado. Os médicos disseram que meu pulmão estava tão comprometido que eu corria o risco de desenvolver uma doença pulmonar crônica. Hoje, estou em tratamento e, embora tenha conseguido parar de usar o cigarro eletrônico, os danos à minha saúde já foram feitos,” relata Gabriel.

Foi o caso, também, da funcionária pública Ana Paula Almeida, 32, que começou a usar cigarros eletrônicos em 2018. Diferente de Gabriel, Ana nunca tinha fumado cigarros convencionais. Ela foi atraída pelo marketing agressivo dos dispositivos eletrônicos, que, para ela, estavam atrelados à ideia de relaxamento e socialização. “Eu nunca fui fumante, mas a ideia de um cigarro eletrônico parecia inofensiva. Vi muitos comerciais e posts nas redes sociais que mostravam pessoas felizes e saudáveis usando esses dispositivos. Decidi experimentar e, logo, estava usando todos os dias”, conta Ana Paula.

Com o tempo, Ana começou a notar efeitos negativos em sua saúde. Ela desenvolveu uma tosse crônica e frequentemente sentia dores no peito. O ponto de virada aconteceu quando, em uma consulta de rotina, seu médico a alertou sobre o perigo dos cigarros eletrônicos. “Após uma série de exames, o diagnóstico foi assustador: eu estava com uma condição pulmonar grave, chamada de EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de produtos de vaporização). Meus pulmões estavam severamente comprometidos, e os médicos disseram que, se eu não tivesse procurado ajuda a tempo, poderia ter sido fatal”, recorda.

Eletrônicos

Segundo o médico Pablo Germano de Oliveira, cardiologista e professor do curso de Medicina da IDOMED Fameac, os cigarros eletrônicos, conhecidos como vape, vaper, pod, e-cigarette, e-ciggy, e-pipe, e-cigar, heat not burn (tabaco aquecido), entre outros, são a forma mais moderna dos cigarros tradicionais. “Como eles possuem aroma e sabor agradáveis, são mais atrativos, principalmente para os mais jovens. Eles tinham antigamente a promessa de serem menos agressivos. Porém, percebeu-se em estudos que o nível de nicotina é muito alto nesses cigarros eletrônicos”, alerta o médico.

Os principais malefícios dos cigarros eletrônicos incluem o aumento do risco de infarto agudo do miocárdio, câncer de pulmão, câncer de bexiga, risco de trombose e morte súbita. “Os dispositivos eletrônicos para fumar contêm uma concentração de nicotina muito alta e mais de 80 substâncias químicas, incluindo substâncias cancerígenas”, explica Pablo Germano de Oliveira.

“Então, além de todos esses riscos, a pessoa que usa cigarro eletrônico tem três vezes mais chance de fumar o cigarro comum. Pode-se desenvolver uma doença muito grave pulmonar chamada EVALI (lesão pulmonar induzida pelo cigarro eletrônico), causada pelos solventes e aditivos do cigarro eletrônico que provocam uma reação inflamatória no pulmão” explica o médico. Entre os sintomas estão tosse, dor torácica, cansaço, náusea, vômito, febre, e até fibrose pulmonar e pneumonia.

A incidência de cigarro eletrônico é maior no Paraná (4,5%), no Mato Grosso do Sul (4%) e no Distrito Federal (3,7%). Além disso, a quantidade de pessoas que conhecem o cigarro eletrônico no Brasil aumentou de 52% em 2019 para 87% em 2023. Em abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu por manter a proibição aos cigarros eletrônicos no Brasil. Com isso, continua proibida a comercialização, fabricação, importação, transporte, armazenamento e propaganda desses produtos. Os cinco diretores da agência votaram pela manutenção da vedação, em vigor desde 2009.

O crescimento do uso de cigarros eletrônicos e os riscos à saúde associados sublinham a importância das ações regulatórias e da conscientização pública. Tanto as histórias de Gabriel e Ana Paula quanto os dados médicos e estatísticos apontam para a necessidade de se evitar esses dispositivos. “Os jovens devem evitar o uso desses cigarros eletrônicos para prevenir problemas de saúde no futuro e evitar que sua expectativa de vida seja influenciada negativamente pelo uso desses produtos”, conclui Pablo Germano de Oliveira.

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Redação
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