No início de 2023, uma nova gestão assumiu a instituição onde eu já trabalhava desde 2018. Como servidor, esperava organização, diálogo, respeito e profissionalismo. Afinal, uma instituição pública não pertence a quem ocupa temporariamente cargos de direção. A instituição é pública e o servidor está ali para servir à sociedade.
Naquele período, muito se falava na chamada “gestão do amor”, em que o servidor era apresentado como peça fundamental da instituição.
Mas, na prática, comecei a perceber que o discurso era muito diferente da realidade.
Ao final da gestão anterior, fui informado de que deveria comparecer diretamente à direção para saber onde seria lotado. Eu já sabia que outra pessoa havia assumido as atividades que antes estavam sob minha responsabilidade na logística.
Ao chegar à direção, ouvi da boca da direção que seria colocado no lugar mais distante possível, em um setor onde não queriam ver a minha “cara” e onde eu deveria ficar o mais longe possível “deles”.
Até hoje, aquela frase permanece na minha memória.
Naquele momento, percebi que talvez o problema não fosse onde eu iria trabalhar. Talvez o problema fosse o fato de eu ser um servidor que questionava, perguntava, conhecia minhas atribuições e não estava disposto a simplesmente baixar a cabeça.
Foi aí que comecei a enxergar a contradição daquela chamada “gestão do amor”.
Se o servidor era realmente a peça fundamental da instituição, por que alguns precisavam ser afastados, isolados ou colocados “o mais longe possível”?
O discurso era de amor. A prática, para alguns servidores, parecia ser de afastamento.
Valorizar servidor não é dizer que ele é importante. É respeitá-lo quando ele questiona, quando cobra, quando aponta problemas e quando exerce seu trabalho com independência.
Porque gestão passa. Cargo passa. Nome passa.
A instituição fica. E o servidor também.
Quando o servidor começa a ser tratado como problema simplesmente por fazer seu trabalho e não permanecer em silêncio, alguma coisa está muito errada.
E essa foi apenas uma das situações que vivi naquele período.
Hoje, olhando para trás, entendo que talvez o maior problema da gestão não tenha sido a falta de discurso, mas a distância entre aquilo que se dizia e aquilo que alguns servidores realmente vivenciaram.
Chamavam de “gestão do amor”. Mas, para muitos, o que ficou foi a sensação de que o servidor só era valorizado enquanto permanecesse calado.
Adriano Sobral










